quarta-feira, 12 de julho de 2017



É tão pouco o tempo que dedicamos aos velhos! Agora que eu também sou um deles, quantas vezes, na solidão das horas que inevitavelmente acompanham a velhice, lembro compungido aquele seu último aceno e observo com tristeza o desamparo que os anos trazem, o abandono a que os homens de nosso tempo relegam os idosos, os pais, os avós, essas pessoas às quais devemos a vida. Nossa "avançada" sociedade deixa de lado quem não produz. Meu Deus, abandonados a sua solidão e a suas ruminações! Quanto de respeito e gratidão perdemos! Que imensa devastação os tempos causaram à vida, que tremendos abismos se abriram com os anos, quantas ilusões foram assoladas pelo frio e pelas tormentas, pelo desengano e pela morte de tantos projetos e seres que amávamos! (...) Enquanto escrevo a vocês, volta a imagem de minha mãe que deixei tão sozinha em seus últimos anos. Tempos atrás escrevi que a vida é feita em rascunho, o que sem dúvida lhe dá transcendência, mas nos impede, dolorosamente, reparar nossos erros e abandonos. Nada do que foi volta a ser, e as coisas, os homens e as crianças não são o que foram um dia. Que horror e que tristeza, o olhar da criança que perdemos!

Por Ernesto Sabato, em A Resistência
- Recomendo vivamente a leitura do livro.

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