sexta-feira, 21 de abril de 2017



A um mendigo

Dormes. E outros já não dormem.
Tens jornais como agasalho.
Embora curto, ébrio ou falho,
o sono é o cobertor do homem.

Por Wagner Schadeck

quinta-feira, 20 de abril de 2017



Antes de ir a Lourdes, como lhe recomendava seu diretor espiritual, Eva foi a Paris, vendeu seu palacete e até suas roupas. Acompanhada de seu cachorro, percorreu pela última vez sua luxuosa mansão; depois, vestida com simplicidade, com a bagagem reduzida ao mínimo, tomou o trem:

“Parto sem remorso, sem voltar a cabeça - escreveu ela - com o coração compenetrado de meus deveres e com o apoio verdadeiro do Céu; isso é uma alegria que ninguém pode compreender, e que ninguém me arrebatará (...). Sou a eterna órfã da Terra que procurou sempre, mas em vão, o alimento de sua alma”.

Conforme seu desejo, Leona [que havia sido empregada de Eva, e que com ela permaneceu após a conversão] vestiu-a com o hábito franciscano [Eva fez-se terceira da Ordem Franciscana]; depois, colocou-lhe sobre o coração, ao lado do crucifixo, um lírio, símbolo da inocência recuperada. Em sua sepultura, junto à parede da Igreja, uma cruz tem a seguinte inscrição:

Eva Lavallière
10 de julho de 1929
“Ó Vós que me criastes, tende compaixão de mim!” (Santa Taís)



Doce Virgem, socorro dos infelizes que vos invocam humildemente, guardai-me.
Eu creio em vós. Respondestes à minha dúvida com um milagre esmagador.
Não sei compreendê-lo, e duvido ainda. Meu maior desejo, porém,
a finalidade última de minhas aspirações, é crer.

Por Alexis Carrel, em Le Voyage de Lourdes

A oração acima foi pronunciada por Alexis Carrel, prêmio Nobel de Medicina, médico, cirurgião, fisiologista, ao testemunhar a cura de uma senhora que esteve sob os seus cuidados por ocasião da primeira viagem dele ao Santuário dedicado à Nossa Senhora de Lourdes, na França. Horas antes, ainda durante o percurso, declara a um amigo seu, igualmente médico e materialista: “Receio que ela morra em minhas mãos. Se ficasse curada, seria verdadeiramente um milagre. Eu acreditaria em tudo e me tornaria monge!”.

Esse primeiro evento não é ainda a “conversão”, mas apenas sua preparação longínqua. Carrel necessitará de longos anos, pesquisas e sofrimentos para libertar-se. Um milagre, por si só, jamais converteu alguém. A ressurreição de Lázaro não converteu os fariseus. A verificação dos maiores milagres não converteu Émile Zola. A conversão é produto da graça, que respeita a liberdade e pressupõe uma prece humilde. Como disse Santo Agostinho: “Dar vista a um cego, multiplicar cinco pães para nutrir cinco mil homens, é prodígio menor do que amadurecer as colheitas ou fazer com que criaturas nasçam com olhos”.

segunda-feira, 17 de abril de 2017



Amar um ser é amá-lo tal como ele é, e não como desejaríamos que fosse. Isto não significa que devamos amar os defeitos do outro, mas sim que devemos amá-lo bastante para que esses defeitos não constituam a causa do afastamento mútuo. Um amor assim compreendido, longe de terminar em culto dos defeitos recíprocos, ajudará a atenuá-los de tal forma que já quase passarão despercebidos. Estes defeitos, de parte e de outra se bem atenuados, não serão sempre vencidos, nem o serão rapidamente. Um meio eficaz de preservar a atmosfera do lar é cultivar em si o antídoto do defeito alheio. Se a um, por exemplo, faltam calma e paciência, o outro deve lutar para obtê-las. Procedendo deste modo, realizando como que uma espécie de influência educativa quotidiana, manteremos o equilíbrio atmosférico tão necessário à paz dos nossos lares. Somente assim teremos um boletim de tempo relativamente estável, e as temperaturas quentes com chuvas e trovoadas serão relativamente pouco frequentes. (...) Que um dia, no epílogo de nossas vidas, possamos talvez dizer como Ramuz: “Vem cá mulher, senta-te aqui ao meu lado, neste banco diante de nossa casa. Esta tarde é também a tarde de nossas vidas (...). Chega-te bem perto de mim e não falemos mais, nada mais temos a dizer, fiquemos apenas juntos, ainda uma vez, e deixemos que a noite venha e com ela a alegria da tarefa executada”.

Por Luiz Renato Caldas, em O homem e a mulher, seres que se completam, IN: vol. LVI, n. 4, 1956, da revista A Ordem

domingo, 16 de abril de 2017







Domingo de Páscoa da Ressurreição do Senhor

Haec dies quam fecit Dominus: exultemus et laetemur in ea.
“Este é o dia que fez o Senhor; regozijemo-nos e alegremo-nos nele” (Sal. 117, 24).

Sumário. Façamos um ato de fé viva na ressurreição de Jesus Cristo; cheguemo-nos a Ele em espírito para Lhe beijar as chagas glorificadas, e regozijemo-nos com Ele por ter saído do sepulcro vencedor da morte e do inferno. Lembrando-nos em seguida que a ressurreição de Jesus é o penhor e a norma da nossa, avivemos nossa esperança, e ganhemos ânimo para suportar com paciência as tribulações da vida presente. Lembremo-nos, porém, que para ressuscitarmos gloriosamente com Jesus Cristo devemos primeiro morrer com Ele a todos os afetos terrestres,

I. O grande mistério que em todo o tempo pascal, e especialmente no dia de hoje, deve ocupar as almas amantes de Deus, e enchê-las de dulcíssima esperança, é a felicidade de Jesus ressuscitado. Já meditamos que Jesus, no tempo de sua Paixão, perdeu inteiramente as quatro espécies de bens que o homem pode possuir na terra. Perdeu os vestidos até a extrema nudez; perdeu a reputação pelos desprezos mais abomináveis; perdeu a florescente saúde pelos maus tratos; perdeu finalmente a vida preciosíssima pela morte mais horrível que se pode imaginar. Agora porém, saindo vivo do fundo do sepulcro, recebe com lucro abundantíssimo tudo quanto perdeu.

O que era pobre, ei-Lo feito riquíssimo e Senhor de toda a terra. O que a si próprio se chamava verme e opróbrio dos homens, ei-Lo coroado de glória, assentado à direita do Pai. O que pouco antes era o Homem das dores e provado nos sofrimentos, ei-Lo dotado de nova força e de uma vida imortal e impassível. Finalmente o que tinha sido morto do modo mais horrível, ei-Lo ressuscitado pela sua própria virtude, dotado de sutileza, de agilidade, de clareza, feito as primícias de todos os que dormem com a esperança de ressuscitarem também um dia à imitação de Cristo: Christus resurrexit a mortuis, primitiae dormientium (1)

Detenhamos-nos aqui para tributar a nosso Chefe divino as devidas homenagens. Façamos um ato de fé viva na sua ressurreição, e cheguemo-nos a ele para beijarmos em espírito os sinais de suas cinco chagas glorificadas. Alegremo-nos com ele, por ter saído do sepulcro, vencedor da morte e do inferno, e digamos com todos os santos: “O Cordeiro que foi imolado por nós, é digno de receber o poder, a divindade, a sabedoria, a fortaleza, a honra, a glória e a bênção.” (2)

II. Regozijemo-nos com Jesus Cristo; mas regozijemo-nos também por nós mesmos, porquanto a sua ressurreição é o penhor e a norma da nossa, se ao menos, como diz São Paulo, morrermos primeiro interiormente ao afeto das coisas terrestres: Si commortui sumus, et convivemus (3) – “Se morrermos com ele, com ele também viveremos”. Ó doce esperança! “Virá a hora em que os mortos ouvirão a voz do Filho de Deus” (4); e então pelo poder divino retomaremos o mesmo corpo que agora temos, mas formoso e resplandecente como o sol. Nós também ressuscitaremos!

A esperança da futura ressurreição é o que consolava o santo Jó no tempo de sua provação. “Eu sei”, disse ele, e nós, digamos o mesmo no meio das cruzes e tribulações da vida presente: “eu sei que o meu Redentor vive, e que no derradeiro dia surgirei da terra; e serei novamente revestido de minha pele, e na minha própria carne verei a meu Deus... esta minha esperança está depositada no meu peito.” (5)

Meu amabilíssimo Jesus, graças Vos dou que pela vossa morte adquiristes para mim o direito à posse de tão grande bem, e hoje pela vossa ressurreição avivais a minha esperança. Sim, espero ressurgir no último dia, glorioso como Vós, não tanto por meu próprio interesse, como para estar para sempre unido convosco, e louvar-Vos e amar-Vos eternamente. É verdade que pelo passado Vos ofendi com os meus pecados; mas agora arrependo-me de todo o coração e pela vossa ressurreição peço-Vos que me livrais do perigo de recair na vossa desgraça: Per sanctam resurrectionem tuam, libera me, Domine – “Pela vossa santa ressurreição, livrai-me, Senhor”.

“E Vós, Eterno Pai, que no dia presente nos abristes a entrada da eternidade bem-aventurada, pelo triunfo que vosso Unigênito alcançou sobre a morte: aumentai com o Vosso auxílio os desejos que a vossa inspiração nos instila” (6). Fazei-o pelo amor do mesmo Jesus Cristo e de Maria Santíssima.

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1. 1 Cor. 15, 20.
2. Ap 5,12.
3. 2 Tim. 2, 11.
4. Io. 5, 28.
5. Iob 19, 25.
6. Or.festi curr.

Por Santo Afonso Maria de Ligório, em Meditações: Para todos os Dias e Festas do Ano: Tomo II: Desde o Domingo da Páscoa até a Undécima Semana depois de Pentecostes inclusive. Friburgo: Herder & Cia, 1921, p. 1 - 3.