quarta-feira, 11 de janeiro de 2017



Soyez béni, mon Dieu, qui donnez la souffrance
Comme un divin remède à nos impuretés
Et comme la meilleure et la plus pure essence
Qui prépare les forts aux saintes voluptés!

Por Charles Baudelaire



Faz parte da essência de toda verdade não tolerar o princípio que a contradiz. A afirmação de uma coisa exclui a negação dessa mesma coisa, assim como a luz exclui as trevas. Onde nada é certo, onde nada é definido, podem-se partilhar os sentimentos, podem variar as opiniões. Compreendo e peço a liberdade de opinião nas coisas duvidosas: “In dubiis, libertas”. Mas logo que a verdade se apresenta com as características que a distinguem, sendo por isso mesmo verdade, ela é positiva, ela é necessária, e por conseguinte ela é una e intolerante: “In necessariis, unitas”. Restringir a verdade ao perímetro da tolerância é condená-la ao suicídio. A afirmação se aniquila ao duvidar de si mesma, e ela duvida de si mesma ao admitir com indiferença ser posta ao lado de sua própria negação. Para a verdade, a intolerância é o instinto de conservação, é o exercício legítimo dum direito de propriedade. Quando se possui alguma coisa [verdadeira], é necessário defendê-la, sob pena de logo se ver despojado dela. (...) Nós somos então intolerantes, exclusivos em matéria de doutrina; nós disto fazemos profissão; nós nos orgulhamos da nossa intolerância. Se não o fôssemos, não estaríamos com a verdade, pois que a verdade é uma, e conseqüentemente intolerante. Filha do céu, a religião cristã, descendo sobre a terra, apresentou os títulos de sua origem; ela ofereceu ao exame da razão fatos incontestáveis, e que provam irrefutavelmente sua divindade. Ora, se ela vem de Deus, se Jesus Cristo, seu autor, pode dizer: Eu sou a verdade: Ego sum veritas, é necessário por uma conseqüência inevitável, que a Igreja Cristã conserve incorruptivelmente esta verdade tal qual a recebeu do céu; é necessário que ela repila, que ela exclua tudo o que é contrário a esta verdade, tudo o que possa destruí-la. Recriminar à Igreja Católica sua intolerância dogmática, sua afirmação absoluta em matéria de doutrina é dirigir-lhe uma recriminação muito honrável. É recriminar à sentinela ser muito fiel e muito vigilante, é recriminar à esposa ser muito delicada e exclusiva. (...) E, para juntar em poucas palavras toda a substância deste meu discurso, eu lhes direi: procurais a verdade sobre a terra? Procurai a Igreja intolerante. Todos os erros podem se fazer concessões mútuas; eles são parentes próximos, pois que tem um pai comum: vos ex patre diabolo estis. A verdade, filha do céu, é a única que não capitula. (...) Sim, Santa Igreja Católica, vós tendes a verdade, porque vós tendes a unidade, e porque vós sois intolerante, não deixais decompor esta unidade.

Pelo Bispo de Poitiers, Dom Louis-Édouard Pie, cognominado “o intolerante”. Sermão pregado na Catedral de Chartres, em 1841.

Para ler o sermão na íntegra, basta clicar aqui: https://goo.gl/rk6zbC.