domingo, 14 de janeiro de 2018



Seria melhor aceitar o inevitável da imitação, para imitar somente coisas boas. Os antigos tinham as suas razões. Grandeza sem modelos? Era inconcebível. Ninguém podia ser a coisa em si - realidade. Era necessário contentar-se com símbolos. Faça disso o objeto da imitação e libere as qualidades mais altas. Estabeleça, pois, a paz com os intermediários e a representação. Mas escolha as representações mais altas, mais dignas, do contrário o indivíduo transformar-se-á no fracasso que agora vê e sabe que é.

Por Saul Bellow, em O Planeta do Sr. Sammler



O ridículo dos idólatras de políticos

“(...) aqueles que acreditam em ídolos inúteis, desprezam a misericórdia.” Jonas 2, 8

Para o eleitorado dos dois primeiros colocados nas pesquisas, política é uma questão de fé. Para seus seguidores, as palavras de Lula ou de Bolsonaro são como sunas ditas pelo profeta Maomé. A atitude de encarar o lulismo como uma questão de redenção e salvação não assusta ninguém, visto o caráter messiânico do socialismo. A perfeição de ambos os deuses, para seus crentes, é inquestionável. Nem o mais claro indício de corrupção é levado em consideração por um segundo. A reação é a mesma de um wahhabista: a culpa é dos infiéis.

Para o eleitorado dos dois primeiros colocados nas pesquisas, política é uma questão de fé. Para seus seguidores, as palavras de Lula ou de Bolsonaro são como sunas ditas pelo profeta Maomé. A atitude de encarar o lulismo como uma questão de redenção e salvação não assusta ninguém, visto o caráter messiânico do socialismo.

A perfeição de ambos os deuses, para seus crentes, é inquestionável. Nem o mais claro indício de corrupção é levado em consideração por um segundo. A reação é a mesma de um wahhabista: a culpa é dos infiéis. Para o lulista, as inúmeras provas dos crimes cometidos por Lula são meras convicções de procuradores e juízes; as notícias sobre seus crimes, uma conspiração da mídia de direita.

Na mesma toada seguem os Bolsonaro e seus adoradores. Se a mídia imputa que o pré-candidato tem embolsado, ao longo de anos, um auxílio-moradia irregular, tudo é “mentira da mídia petista”. Quando se descobre que ele emprega uma funcionária fantasma como caseira de sua residência de verão em Mambucaba, Angra dos Reis, “estão tentando desviar o foco dos crimes de Lula”. Se descobrem que usa um assessor do seu filho, administrador da página Carteiro Reaça, para incitar ataques àqueles que discordam da plataforma da família Bolsonaro, “são leviandades”.

Nessa religião, não existem apenas aqueles que acreditam piamente que sua divindade – chamado de Mito – seria incapaz de se corromper. Há, sim, os que entendem a ilegalidade dos seus atos. “Mas o que é esse pouquinho perto do quanto Lula roubou?”, dizem estes últimos. Ou, “todos roubam, pelo menos este é melhor que os outros”. E assim, se aproximam do petismo, seu nêmesis político, justificando a corrupção em nome de sua crença inabalável em um político.

Desde 2014, Lula, Dilma e as estrelas do PT se transformaram em temática de decoração de festas de aniversário. À semelhança, festas temáticas com a foto do Mito viraram um fenômeno entre as crianças e jovens de todo o país. Noivos entregam-se as alianças metidos em camisetas com a foto de seu ídolo, Bolsonaro. À semelhança de um deus, Bolsonaro foi elevado e incensado aos altares por seus fiéis.

O puritanismo relativo, à maneira do islã, persiste também nessas novas religiões da política brasileira. O profeta Lula chamar mulheres viris de “grelo duro”, mas o petismo condenar o machismo onde não existe. Da mesma forma, vimos Bolsonaro proclamar seu horror seletivo à “promiscuidade” nos últimos anos, mas deixar registrado para a história que o seu auxílio-moradia foi usado para “comer gente”, como disse à Folha.

Como os petistas, os bolsominions criaram sua própria Santa Inquisição. Na internet, atacam e perseguem todos aqueles que ousam discordar da palavra do Mito, que é uma espécie de senhor sacral. A “caça aos comunistas” virou a nova palavra de ordem no âmbito do tribunal instantâneo. O sinônimo do infiel, na religião bolsonariana, é o “esquerdista”. Quem ouse imputar erros à sagrada figura de Jair, o Messias, por mais que tenha impecáveis credenciais à direita, recebe como galardão a foice e martelo na testa, e a pecha de “vermelho”. Não seria isto uma reedição das constantes caças às bruxas promovidas pelo petismo no auge do governo Dilma, com novos protagonistas?

Uma hora, o ídolo de barro feito por mãos ignorantes será quebrado. Em algum momento, Bolsonaro irá derreter nas urnas e sua canastrice será exposta para o eleitor. Pensando nesse futuro, fica a minha pergunta: o que será daqueles que o tinham como deus? Cozinharão um porre de ressaca moral? Fingirão que os momentos de idolatria nunca aconteceram? Sustentarão sua cegueira e o dogma de que existe uma perseguição em curso contra um homem honesto e puro? Ou irão à caça de um novo ídolo, como fizeram uns com Lula, e outros tantos com o deputado carioca?

Deus tenha misericórdia – à maneira de Eduardo Cunha – de um país que alça políticos à categoria de ídolos, pois “aqueles que acreditam em ídolos inúteis, desprezam a misericórdia” (Jonas 2, 8).

Por Lucas Baqueiro

sábado, 13 de janeiro de 2018



A ditadura dos impostos

A carga tributária nos faz funcionários públicos sem 
concurso e sem direitos. E o nome disso é escravidão

Sempre que nasce um brasileiro, acende uma luzinha vermelha lá em Brasília e um funcionário grita:

— Chegou mais um contribuinte!

Na verdade, essa palavrinha do funcionário já é uma afronta. Contribuinte, como diria o Padre Quevedo, non ecziste. O que existe é pagador de impostos.

A vida do brasileiro consiste em pagar impostos. Você paga para trabalhar (IR), para ocupar lugar no espaço (IPTU), para se locomover (IPVA), para prestar algum serviço (ISS), para vender ou comprar alguma coisa (ICMS), e assim por diante. Mas esses são os impostos que têm nome e boleto. Há uma infinidade de impostos ocultos, embutidos em tudo que você faz. Comer, beber e dormir são verbos sujeitos à tributação. A vida tornou-se alíquota; viver, um boleto.

Hoje cada um de nós trabalha até maio só para pagar impostos; quase metade do que ganhamos vai direto para as mãos do governo. Por muito menos — 20%, o quinto dos infernos — Tiradentes e seus amigos (entre eles um traidor) fizeram a Inconfidência Mineira.

De certa forma, somos todos funcionários públicos não concursados, com a diferença que não temos estabilidade nem podemos fazer greve. Se isso não é escravidão, o que é?

Mas não é só o governo formal que cobra impostos. Os donos do mundo e justiceiros sociais também estão de olho em você, pobre leitor. O que é a imposição de agendas “progressistas” (aborto, ideologia de gênero, liberação das drogas, impunidade de criminosos, lavagem cerebral nas escolas) senão uma forma de cobrar imposto ideológico sobre o cidadão comum?

Os dois piores tributos, no entanto, não são econômicos nem ideológicos. Estou falando do imposto sobre a vida e do imposto sobre a inteligência. O primeiro é o imposto dos assassinatos, que levam 70 mil brasileiros por ano, um a cada 9 minutos; o segundo é o imposto do analfabetismo funcional, que está criando uma geração de brasileiros incapazes de ler e escrever, graças ao pior sistema educacional do mundo, patrocinado por Paulo Freire e seus companheiros. A simples existência desses outros dois impostos demonstra que o liberalismo é importante, mas não resolve tudo. Todo aquele que promete salvar o país somente com medidas liberalizantes é parte do problema, não da solução.

Ainda não sei quanto vou pagar de IPTU neste ano. Mas, pelo que andam dizendo, minha cara ao receber o boleto vai ficar parecendo a famosa tela "O Grito", de Edvard Munch. Quando da votação do novo IPTU na Câmara de Vereadores, eu já havia dito que os favoráveis estariam decretando sua morte política. E isso por um motivo muito simples: ninguém aguenta mais pagar imposto no Brasil. Toda e qualquer revisão do IPTU, em minha opinião, só seria aceitável como parte de uma profunda reforma administrativa, não apenas com a redução temporária de despesas, mas com extinção de secretarias, congelamento de salários, programa de demissões voluntárias, privatização de empresas públicas (no caso, a Sercomtel) e outras medidas semelhantes.

Do contrário, só teremos choro e ranger de dentes.

Por Paulo Briguet

quarta-feira, 10 de janeiro de 2018



Confesso que tenho saudades dos anos já tão distantes em que podíamos sair, mesmo nos maus tempos, sem o perigo de esbarrar nos profetas; em que vi seres simples e humildes - eles ainda existiam - que não acreditavam ser soberanos nem deuses, e cuja penetração fatídica limitava-se a prever modestamente alguns meteoros, ou a rezar com fervor quando se anunciavam calamidades. Nessa época ninguém não sabia tudo. Os sapateiros mais soberbos não se vangloriavam de poder conduzir exércitos à vitória, e encontrava-se um grande número de construtores e de varredores que não aspiravam ao ministério da economia ou da marinha.

Por Léon Bloy, em Nas Trevas



“Quando derramamos nossas lágrimas, que são
‘o sangue das almas’, é sobre o coração da
Virgem que elas caem (...).”

segunda-feira, 1 de janeiro de 2018



Há coisas muito, muito melhores à frente
do que qualquer uma das que deixamos para trás.

Por C. S. Lewis, em “Collected letters”



Oferta do novo ano a Deus

Ó Deus eterno e onipotente, com a vossa graça damos princípio a este novo ano! Que será de nós no seu decurso? Passá-lo-emos santamente? Chegaremos até seu fim? Só Vós o sabeis, Senhor. A nós só cumpre entregá-lo totalmente em vossas mãos, confiando unicamente na vossa misericórdia. Começamo-lo oferecendo-vos as mais devotas e fervorosas homenagens do nosso coração, como as primícias deste novo ano.

Nós vos adoramos, vos louvamos e vos bendizemos, ó fonte de todo bem. Desejamos que sejais adorado, louvado e engrandecido por todas as criaturas. Consagramo-vos o nosso corpo, a nossa alma, todos os nossos sentidos, todas as nossas faculdades e potências, e toda a nossa vida. Nós vos oferecemos todos os nossos pensamentos, afetos, palavras e obras. Oh, quem nos dera passar este ano em perfeito holocausto à vossa divina glória! Tais são nossos desejos. Mas, Senhor, vós bem sabeis quão fracos e mesquinhos somos.

Dignai-vos, pois, derramar sobre nós a torrente de vossas graças, para que, com elas fortificados, superemos os obstáculos, vençamos as dificuldades e só vivamos para a vossa honra e glória, e para a santificação de nossas almas. Virgem Santíssima, São José, anjo da nossa guarda, todos os santos e santas da corte do céu, intercedei por nós no decurso deste novo ano. Amém.

Fórmula da renovação das promessas do Santo Batismo
(para o dia 1º de janeiro)

Creio em vós, meu Deus, Pai onipotente, Criador do céu e da terra.

Creio em Jesus Cristo, vosso Filho unigênito, verdadeiro Deus e verdadeiro homem, que morreu na cruz para me salvar, que no terceiro dia ressuscitou, subiu ao céu onde está sentado à direita de vós, Deus Pai, donde há de vir e julgar os vivos e os mortos.

Creio no Espírito Santo, na santa Igreja Católica, na comunhão dos santos, na remissão dos pecados, na ressurreição da carne e na vida eterna.

Renuncio ao demônio e, com a vossa graça, ó meu Deus, repelirei as suas tentações.

Renuncio às obras do demônio, aos pecados por pensamentos, palavras e obras.

Renuncio às pompas, aos espetáculos e divertimentos mundanos, ilícitos e perigosos.

Prometo, ó meu Deus, com o vosso auxílio, guardar os vossos santos mandamentos, amar-vos de todo o coração sobre todas as coisas, por amor de vós.

E como conheço a minha fraqueza, peço-vos clementíssimo Senhor, que me ajudeis a cumprir esta minha promessa, e me concedais o dom da perseverança final, no gozo de vossa graça.

Maria Santíssima, minha querida Mãe, anjo da minha guarda, santos meus protetores, intercedei por mim, a fim de que, até à morte, eu constantemente persevere na graça de Deus. Amém.

domingo, 31 de dezembro de 2017



Oração para a Passagem do Ano

Meu Jesus adorado, queremos vos oferecer nesta hora em que o tempo vira uma página da história dos homens, nosso olhar e nossas orações, contemplando o Mistério do Natal, do Vosso Presépio, onde nascestes para nos salvar.

E assim como fostes não mais do que uma frágil criança, dependendo em tudo de Vossa Mãe Santíssima e de São José, Vosso Pai adotivo, assim queremos ser, diante de Vós e de Vosso Pai.

Antes de tudo, queremos agradecer por todas as graças que recebemos ao longo deste último ano, graças de perdão, graças de amor, vindo em nossos corações pela Santa Comunhão. Também por todas as forças e ajudas que recebemos de Vós para bem realizar nossas obrigações e deveres, tanto materiais quanto espirituais.

Nós sabemos, ó Bom Jesus, que por causa do abandono em que vos deixamos por nossos pecados, tudo o que temos nos vem da pobreza da gruta em que nascestes, da Cruz que aceitastes por nossa causa. E que, pela gloriosa Ressurreição alcançaremos, nós também, o Céu onde habitais.

Hoje o mundo se prepara para festejar um ano que termina, outro que começa. Nós queremos nos lembrar, antes de tudo, que foi o Vosso nascimento em Belém que deu origem a todos os séculos. Ali, naquela hora sublime, o tempo parou de contar para dar início a uma nova era, marcada por Vossa presença sobre a Terra.

É assim que queremos viver todos os dias, lembrando que um dia, estivestes pisando o pó das nossas estradas, falando com nossa gente, morrendo sobre uma Cruz para mostrar o caminho do Céu. Dessa lembrança virá nossa felicidade neste novo ano.

Que este ano bom seja para nós e para todos os nossos queridos pais, parentes e amigos, de verdadeira felicidade e sincera paz, e que os fogos e festejos dessa hora só nos faça estar mais próximos do tempo sem fim da Vossa Eternidade.

Amém.

•• ••

“Todas as tardes são iguais”, dizia Jorge Luis Borges, não sem razão. Da mesma forma, podemos dizer que todos os anos não são lá muito diferentes, convenhamos. Seja como for, se pouco podemos interferir diretamente na “marcha dos acontecimentos”, ao menos podemos modificar a nós mesmos. Desejo para todos aqueles que me visitam – amigos, conhecidos e desafetos – um Feliz Ano Novo; desejo também, e sobretudo, um feliz ânimo novo! É que apenas com ânimo renovado teremos forças para enfrentar essa “guerra que é a vida do homem sobre a terra”, no dizer do heróico Jó. Para 2018, fé, esperança e caridade em doses generosas para todos – amigos, conhecidos e desafetos!

sexta-feira, 29 de dezembro de 2017



Brevíssima meditação
e oração para o fim do ano

Devemos aproveitar bem o tempo

I. O tempo, sobre ser a coisa mais preciosa, porque é um tesouro que só neste mundo se acha, é ainda de mui curta duração. “Ecce breves anni transeunte”. Lembra-te de como se passaram depressa os doze meses do ano que hoje finda! É, portanto, com razão que o Espírito Santo nos exorta a conservarmos o tempo, e não deixarmos perder-se um só momento sem o aproveitarmos bem. Mas, ai de nós! Quão diversamente vão as coisas! Ó tempo desprezado, tu serás a coisa que os mundanos mais desejarão na hora da morte, quando ouvirem dizer que para eles não haverá mais tempo: “Tempus non erit amplius”.

E tu, irmão meu, em que empregas o teu tempo? Deus te concedeu a graça de teres chegado até ao dia de hoje, com preferência a tantos milhares e milhões de pessoas, talvez da tua idade, ou mesmo mais novas, talvez fortes como tu ou ainda mais robustos, com a mesma compleição que tu, ou talvez mais sadia. Elas morreram e tu estás vivo! Elas estão reduzidas à podridão e cinzas no túmulo e tu estás aqui meditando! Elas na eternidade - e muitas infelizmente no inferno - e tu ainda no tempo! Mas como é que passas o tempo? Em que coisas o empregaste até hoje?

Faze aqui, aos pés de Jesus Cristo, um exame geral da tua vida. Pondera, por um lado, as inúmeras graças com que Deus te tem cumulado especialmente no correr deste ano; por outro, recorda as faltas, as imperfeições, quiçá os pecados, com que continuamente, desde o primeiro dia do ano até este último, tens ofendido o Senhor, retribuindo-lhe a Sua liberalidade infinita com ingratidão. Ah! Se não resgatares desde já o tempo inutilmente perdido, ou quiçá mal-empregado, ele te causará remorsos amargosos, quando, no leito da morte, te achares próximo àquele grande momento do qual depende a eternidade!

II. Meu irmão, se, por desgraça, tiveres de reconhecer que passaste na tibieza o tempo do ano que terminou, procura passar no fervor ao menos este último dia. Agradece muitas vezes a Deus o ter-te conservado em vida até ao dia de hoje e pede-Lhe perdão das negligências passadas no Seu serviço. Visto que não sabes se viverás até ao dia de amanhã e se entrarás ainda no ano novo, põe hoje mesmo em ordem as coisas de tua consciência e purifica a tua alma por meio de uma confissão anual. Afinal, faze um propósito firme e eficaz de servires a Deus para o futuro com mais zelo, e de empregares melhor o ano vindouro. É assim que, no dizer do Apóstolo, andarás no caminho da Salvação com circunspeção, e recobrarás o tempo: “Videte quomodo caute ambuletis... redimentes tempus”: Vede como andais prudentemente... remindo o tempo.

Ó Senhor, cuja misericórdia não tem limites, cuja bondade é um tesouro inesgotável, dou graças à Vossa Majestade piedosíssima por todos os benefícios que me tendes feito, e em particular, pelo tempo que me concedeis para chorar as minhas culpas, e reparar as minhas desordens. Quem sabe se o ano que hoje finda, não será talvez o último inteiro da minha vida? Não, não quero mais resistir aos vossos convites tão amorosos. Pesa-me, ó meu Bem supremo, de Vos ter ofendido e proponho fazer de hoje em diante contínuos atos de amor, a fim de compensar o tempo perdido.

Como, porém, as ocupações da vida não me permitem dirigir os meus pensamentos sem interrupção para Vós, faço hoje o seguinte ajuste, que será válido durante todo o ano vindouro e todo o tempo da minha vida. Cada vez que levantar os olhos para contemplar o céu, tenho intenção de glorificar as vossas perfeições infinitas. Quantas vezes respirar, quero oferecer-Vos a Paixão e o Sangue de meu divino Redentor, bem como os merecimentos de todos os Santos, para a Salvação do mundo inteiro e em satisfação dos pecados que se cometerem. Toda a vez que bater no peito, quero amaldiçoar e detestar cada um dos pecados cometidos desde o princípio do mundo, e quisera poder repará-los com o meu sangue. Finalmente, a cada movimento das mãos, ou dos pés, ou de qualquer outra parte do corpo, tenciono submeter-me à vossa santíssima vontade, desejando que de conformidade com esta, se façam todas as coisas. Para que este meu ajuste nunca mais seja violado, confirmo-o e selo-o com as cinco Chagas de Jesus Cristo, e deposito-o em Vossas mãos, ó Mãe da perseverança, Maria Santíssima.

Amém.

Por Santo Afonso Maria de Ligório

terça-feira, 26 de dezembro de 2017



Poema de Natal

– Sino, claro sino,
tocas para quem?
– Para o Deus menino
que de longe vem.
– Pois se o encontrares
traze-o ao meu amor.
– E que lhe ofereces
velho pecador?
– Minha fé cansada,
meu vinho, meu pão
meu silêncio limpo,
minha solidão.

Por Carlos Pena Filho

segunda-feira, 25 de dezembro de 2017



Jesus Cristo nasceu, dai-Lhe glória! Cristo desceu dos céus, correi para Ele! Cristo veio à Terra, exaltai-O! “Cantai ao Senhor, Terra inteira. Alegria no céu; Terra, exulta de alegria!” (Sl 96,1.11). Descendo do céu, Ele vem habitar no meio dos homens. Estremecei de temor e de alegria: de temor por causa do pecado; de alegria em razão da esperança. Hoje, as sombras dissipam-se e a luz eleva-se sobre o mundo; como outrora no Egito envolto em trevas, hoje uma coluna de fogo ilumina Israel. O povo, que estava sentado nas trevas da ignorância, contempla hoje essa imensa luz do verdadeiro conhecimento porque “o mundo antigo desapareceu, todas as coisas são novas” (2Cor 5,17). A letra recua, o espírito triunfa (Rom 7,6); a prefiguração passa, a verdade aparece (Col 2,17).

Aquele que nos deu a existência quer também inundar-nos de felicidade; a incarnação do Filho devolve-nos a felicidade que o pecado nos havia feito perder. (…) Nesta solenidade, saudamos a vinda de Deus ao meio dos homens para que possamos regressar para junto de Deus; a fim de que nos despojemos do homem velho e nos revistamos do homem novo (Col 3,9); a fim de que, mortos em Adão, vivamos em Cristo (1Cor 15,22). (…) Celebremos pois este dia, cheios de uma alegria divina, não mundana, mas uma verdadeira alegria celeste. Que festa, este mistério de Cristo! Ele é a minha plenitude, o meu novo nascimento.

Por São Gregório de Nazianzo (330-390), em Sermão n° 38, para a Natividade

domingo, 24 de dezembro de 2017



Habitantes do mundo, filhos dos homens, escutai. Os que jazem no pó, despertai, jubilosos; que o médico se aproxime do doente, o redentor dos escravos, o caminho dos perdidos, a vida da morte. Aproxima-se aquele que lança nossos pecados ao fundo do mar, que cura nossas enfermidades e nos carrega nos ombros para devolver-nos nossa dignidade original. Seu poder é enorme, mas Sua misericórdia é ainda mais admirável, pois Ele quis vir a mim, com a eficácia de Seu remédio.

Hoje sabereis que vem o Senhor. Esta expressão aparece em um lugar e tempo específicos na Escritura. Mas nossa mãe, a Igreja, a aplica, com razão, à vigília do nascimento do Senhor. A Igreja sempre conta com o amém e a inspiração de Seu Esposo, seu Deus. Ele, como um amante, descansa em seus seios. Assume e mantém a casa de Seu coração. Mas foi ela quem feriu Seu coração e aprofundou o olho da contemplação no abismo dos mistérios divinos. Assim estabelece nos corações uma morada perene. Ele nela e ela n’Ele.

Por São Bernardo de Claraval, em Terceiro Sermão do Natal, 1

sexta-feira, 22 de dezembro de 2017



Saudação Natalina

Com a proximidade do Natal de Nosso Senhor, acodem-me à lembrança as palavras de Antônio Feliciano de Castilho, que aos cinco anos de idade perdeu completamente a visão:

“Noite de Natal, quem te não ama? Noite das virgens e das mães, dos meninos e dos velhos, dos camponeses e dos soberanos, noite dos anjos e dos homens, qual será o coração que tu não alvoroças?”

Noite das virgens e das mães, porque aquela que gerou em seu seio, de modo inefável, o Salvador da humanidade inteira, o Messias prometido, Cristo Jesus, era, simultaneamente, Virgem e Mãe: “Et incarnatus est de Spiritu Sancto ex Maria Virgine et homo factus est”;

Noite dos meninos e dos velhos, uma vez que aquela criança, nascida em Belém de Judá: “Cum natus esset Jesus in Bethlehem Juda, in diebus Herodis Regis” (Lc 2,1) - era menino como os demais meninos, - “puer natus est nobis” (Is 9,5) - e se constituiu a grande esperança de salvação para todos os velhos, na pessoa do velho Simeão, que pôde, então, cantar: “Nunc dimittis servum tuum, Domine, secundum verbum tuum in pace; quia viderunt oculi mei salutare tuum”, (“Agora, Senhor, deixai partir em paz o vosso servo, segundo a vossa palavra, porque os meus olhos viram a vossa salvação” (Lc 2,29-30);

Noite dos camponeses e dos soberanos, visto que nasceu exatamente no meio dos humildes pastores, que pastoreavam seus rebanhos na frieza de uma meia-noite de inverno, aos quais os anjos anunciaram: “Glória in excelsis Deo et in terra, pax hominibus bonae voluntatis”. (Glória a Deus nas alturas e paz na terra aos homens de boa vontade - Lc 2,14); dos soberanos, porquanto aquele menino, aparentemente comum, era o Rei do Céu e da Terra, como Deus. (“Nasceu-nos um menino... o império repousa sobre seus ombros...” Is 9,6). Já Virgílio, poeta latino do século I (a.C.), na 2º Écogla das Bucólicas, 1º parte de sua obra monumental, fala de um “puer mirabilis”, que haveria de nascer; e,

Noite dos Anjos e dos homens: daqueles, visto como lhes foi cometida a tarefa de anunciar a estes a concretização da grande expectação e esperança da humanidade, conforme está dito em Lc 2, 10-11: “Ecce evangelizo vobis gaudium magnum quod erit omni populo, quia natus est vobis hodie Salvator, qui est Christus Dominus in civitate David.” (“Eis que eu vos anuncio uma grande alegria, a qual será para todo o povo, pois nasceu hoje para vós o Salvador, que é o Cristo Senhor, na cidade de Davi.”).

Nesta mensagem angélica, três verdades estão contidas: a verdade histórica do nascimento do Salvador, a universalidade da Salvação e a necessidade da aceitação por parte dos homens de boa vontade. Assim, e somente assim, Aquele que nasceu para todos – “nulla facta exceptione” - poderá salvar a todos: “Eu vim para que todos tenham a vida, e para que a tenham em abundância” (Jo 10,10).

Um Santo e Feliz Natal para você que me visita, seja virgem ou mãe,
menino ou velho, camponês ou soberano, anjo ou homem!!!

sábado, 16 de dezembro de 2017



Cada vez mais percebo que um namoro e um casamento só podem dar certo se ambos se amarem com um tipo de amor sobrenatural. Caso isso não aconteça, cedo ou tarde as dificuldades descambarão para desentendimentos e brigas, nos quais é muito fácil reivindicar razão contra o outro (“o problema é ELE/ELA, eu tenho razão!”). Inversamente, quando pedimos a Deus que nos conceda amar o próximo com amor sobrenatural, começamos aos poucos a ver a beleza da alma por trás do corpo e vamos aprendendo a perdoar as faltas, defeitos e imperfeições do próximo. É sintomático da doença de nossa sociedade que, juridicamente falando, seja mais fácil separar-se do que casar-se no Brasil de hoje.

quinta-feira, 14 de dezembro de 2017



Marcela amou-me durante quinze meses
e onze contos de réis; nada menos.

Por Machado de Assis, em Memórias Póstumas de Brás Cubas