terça-feira, 1 de maio de 2018



Não te esqueças de mim,
dizem os homens uns aos outros,
afastando-se

Por Casimiro de Brito, em Antologia da poesia portuguesa

domingo, 22 de abril de 2018



Depois de mais de duas décadas com depressão, a pessoa não sabe mais se o mal que ela sente é da doença ou espiritual ou se é uma seqüela de anos tomando remédios para dormir e acordar. Talvez seja um pouco de tudo isso. Há anos eu faço a mesma pergunta: "o que raios eu estou fazendo aqui?" Não é simplesmente um tédio movediço, é um torpor que vai corroendo todos os seus pensamentos, transformando qualquer ação em uma manobra de sobrevivência. É por isso que calmantes são tão atrativos e viciantes; eles oferecem uma sensação de anestesia imediata e morte asséptica que devora a alma. Há muita especulação em torno da doença, e a meu ver está sim relacionada à postura que você resolve tomar diante do mundo; o mundo não pode ser ignorado, ou você está dentro dele ou fora dele, este é o grande dilema do paciente, ele acha que pode 'sair' impunemente e 'ficar de fora' sendo um mero expectador de si pela falta de coragem de arcar com o peso do heroísmo que é estar vivo. O hábito de jogar nos ombros dos outros a responsabilidade que é só sua anulou praticamente todas as suas possibilidades de escolha e decisão. É por isso que eu invejo tanto as pessoas que não tem nada e mesmo assim conseguem viver em paz e cheias de ânimo e alegria, são os santos da terra!

Anônimo

segunda-feira, 16 de abril de 2018



Sempre que São Francisco de Assis passava em frente a uma igreja – ou até via a torre da igreja de longe – ele parava, beijava o chão e rezava a seguinte oração:

“Te adoramos, Santíssimo, Senhor Jesus Cristo, aqui e em todas as igrejas do mundo e te agradecemos, pois em tua Santa Cruz , tu redimiste o mundo”.

Fotografia: Capela de Santo Antônio erguida pela família Modenezi na cidade de Ibiraçu, estado do Espírito Santo, às margens da rodovia 101.

Nas vezes todas em que nos aproximarmos de uma Igreja Católica, ainda que seja da mais modesta das capelas, caberá a cada um de nós a feliz obrigação de honrar a Deus pelo grande mistério de sua presença na Eucaristia:

– Oh, Pai Celestial, grande Sacramento, eu vos adoro e vos glorifico neste momento!
– Jesus, Coração de Maria, rogo que enviai vossa benção sobre minha alma!
– Santíssimo Jesus, amante Salvador. Te dou o meu coração!
– Que todos conheçam, adorem e glorifiquem a todo momento e sempre o Santíssimo e Divino Sacramento!
– Doce coração de Jesus, fazei que eu vos ame sempre mais!
– Oh, Santíssimo Sacramento, oh Sacramento Divino. Graças e louvores vos sejam dados a todo momento!
– Coração Eucarístico de Jesus, que arde de amor por nós, acendei nossos corações com vosso amor!
– Meus Deus e meu tudo!
– Que o Coração de Jesus no Santíssimo seja glorificado, adorado e amado com muito afeto em todos os momentos e em todos os tabernáculos do mundo inteiro. Amém!

segunda-feira, 9 de abril de 2018



Não é vergonhoso ver um número infinito de homens não só a obedecer mas rastejar, não serem governados mas tiranizados, não tendo nem bens, nem parentes, nem crianças, nem sua própria vida que lhes pertençam? Suportando as rapinas, as extorsões, as crueldades, não de um exército, não de uma horda de bárbaros, contra os quais cada um deveria defender sua vida a custo de todo o seu sangue, mas de um só; não de um Hércules ou de um Sansão, mas de um verdadeiro Mirmidon, amiúde o mais covarde, o mais vil. Pobre gente e miserável, povo insensato, nação obstinada em vosso mal e cega ao vosso bem, deixai roubar, sob vossos próprios olhos, o mais belo e o mais claro de vossa renda, pilhar vossos campos, devastar vossas casas.

Por Etienne de la Boétie, em Discurso da Servidão Voluntária
MYRMIDON: homenzinho medíocre, insignificante.

sábado, 7 de abril de 2018



Lula foi preso e muito em breve será solto. É provável que um grande acordo esteja sendo tramado neste momento, ou em algum momento nos próximos meses, o que não seria de surpreender. Esperamos por isso, quase conformados. Entretanto, comemorar sua prisão por alguns instantes é compreensível e é legítimo.

Há trinta anos ele embaralha, corta e distribui as cartas na política nacional. Sob sua barba, em dois mandatos, um esquema de corrupção de proporções nunca vistas nasceu, alastrou-se e se consolidou. Enquanto as contas públicas sangravam ele andava de lá pra cá com a petulância de um faraó.

A cúpula do PT caiu e ele se manteve firme. Para sobreviver, cortaram na carne e a carne não era sua. Sua arrogância cresceu. Indicou sua sucessora, de incompetência exemplar, a corrupção se ramificou ainda mais, as contas explodiram, a economia encolheu e o país virou um puxadinho do Partido dos Trabalhadores e das empreiteiras.

Nem por um momento, nem por um segundo, Lula recuou. Ao contrário: dobrou a aposta. Como se a consciência moral de homem público lhe faltasse ou lhe fosse desconhecida. Mesmo investigado, julgado e condenado, fez pouco caso do sistema judiciário, da impaciência popular e da imprensa.

Intoxicado pelo poder, envenenado pela própria língua, bêbado de si mesmo, Lula já se comparou a Jesus Cristo, a Gandhi, a Mandela e a Martin Luther King; já disse admirar a “força” de Hitler e garantiu ao Papa ser livre de pecado; fez ameaças, concedeu perdão, jurou calar a imprensa, invocou o diabo, exigiu que lhe beijassem os pés, incitou a violência, pregou a paz. Algoz e vítima, carrasco e mártir – a um só tempo.

O regozijo com sua prisão não é a delícia da vingança, a “banalidade do mal”, o sacrifício do bode expiatório. O regozijo com sua prisão é apenas uma espécie de desabafo, de relaxamento dos músculos da paciência, de euforia provocada pelo cansaço extremo. Homens públicos deveriam se portar com a magnanimidade que se espera deles – principalmente quando erram, ou quando sob seu governo se erra. São, em tese, servidores. São, em tese, representantes do povo.

Mas Lula nunca se viu como homem público. Nunca se quis assim. Lula sempre foi o homem privado, de interesses privados, de acordos privados, que usou e abusou da credulidade pública em seu próprio benefício. Ele só representa a si mesmo há trinta anos, e “democracia” é o nome que ele sempre deu para os arranjos em que sua vontade prevalece. Lula esculpiu, com a matéria-prima de um gigantesco e gorduroso ego, sua própria Bastilha. Porém, se esqueceu de que, cedo ou tarde, a história dá voltas – e toda Bastilha cai.

Por Gustavo Nogy

domingo, 1 de abril de 2018



Cristo ressuscitou. Verdadeiramente ressuscitou!
Viva Cristo Rei.

فصحٌ مقدّسٌ، سعيدٌ ومجيدٌ للجميع.

Vamos todos entrar na alegria de Deus!
Primeiro e último, igualmente recebem sua recompensa; rico e pobre, se alegram juntos!
Sensato e preguiçoso, celebram o dia!
Você que guardou o jejum, e você que não jejuou,
alegrem-se hoje, pois Mesa está farta com opulência!
Não deixe ninguém ir com fome. Participem todos da taça da fé!
Desfrutem todas riquezas de Sua bondade!
Não permita que ninguém se aflija em sua miséria,
Pois o reino universal foi revelado.
Não deixa ninguém lamentar-se porque caiu de novo e novamente;
pois o perdão ergueu-se do túmulo.
Não deixa ninguém temer a morte, pois a Morte do nosso Salvador nos libertou.
Ele a destruiu por tê-la suportado.
Cristo está ressuscitado, e você, oh morte, está aniquilada!
Cristo está ressuscitado, e os perversos estão derrubados!
Cristo está ressuscitado, e os Anjos se alegram!
Cristo está ressuscitado, e a vida está libertada!
Cristo está ressuscitado, e o túmulo está vazio da morte; pois Cristo se ergueu da morte,
A Ele a Glória e o Poder para todo o sempre. Amém!

Trechos d’O Sermão de Páscoa, por São João Crisóstomo

sexta-feira, 30 de março de 2018



“Felizes os que nele confiam!” (Sl 2,12)

Bem-aventurado seja Aquele que, para me permitir ocultar-me “nas fendas dos rochedos” (Cant 2,14), deixou que Lhe perfurassem as mãos, os pés e o lado. Bem-aventurado Aquele que Se abriu por completo a mim, a fim de que eu pudesse penetrar no admirável santuário (Sl 41,5) e “abrigar-me na sua tenda” (Sl 26,5). Este rochedo é um refúgio (…), doce lugar de repouso para as pombas, e os orifícios escancarados das chagas que tem por todo o corpo oferecem o perdão aos pecadores e concedem a graça aos justos. É morada segura, irmãos, “torre sólida contra o inimigo” (Sl 60,4), habitar por meio da meditação amante e constante as chagas de Cristo Nosso Senhor, procurar na fé e no amor pelo Crucificado abrigo seguro para a nossa alma, abrigo contra a veemência da carne, as trevas deste mundo, os assaltos do demónio. A proteção deste santuário sobrepõe-se a todas as vantagens deste mundo.

Entra pois neste rochedo, esconde-te (…), refugia-te no Crucificado. (…) O que é a chaga do lado de Cristo senão a porta aberta da arca para os que serão preservados do dilúvio? Mas a Arca de Noé era apenas um símbolo; isto é a realidade; já não se trata de salvar a vida mortal, mas de receber a imortalidade.

É pois razoável que a pomba de Cristo, a sua amiga formosa (Cant 2,13-14) (…), cante hoje os seus louvores com alegria. Proveniente da memória ou da imitação da Paixão, da meditação das suas santas chagas, como das fendas do rochedo, a sua voz dulcíssima ressoa aos ouvidos do Esposo (Cant 2,14).

Pelo Beato Guerric de Igny (c. 1080-1157), abade cisterciense, no 4.º Sermão para os Ramos

segunda-feira, 26 de março de 2018



Quando as pessoas acreditarem que a prosperidade é a recompensa da virtude, ela será tomada como sinónimo de virtude. Os homens desistirão da tarefa difícil de fazer dos homens bons homens de sucesso e adoptarão a tarefa mais fácil de dizer que os homens de sucesso são homens bons.

Por G. K. Chesterton, em Introdução ao Livro de Job

sábado, 24 de março de 2018



O golpismo do status quo

Dou o braço a torcer aos amigos petistas: é golpe!

Quando da delação de Sérgio Machado, que atingiu fortemente a cúpula do PMDB (hoje, MDB), havia um só avatar nos perfis de Twitter e Facebook de cada sujeito que gritava “golpe”. Era uma gravação de uma conversa com o senador Romero Jucá (MDB-RR) em que ele falava em um grande acordo nacional para levar Michel Temer à presidência. Seletivamente, alguns trechos não constavam nos avatares, nem nos portais de notícias falsas bancados pelo finado governo Dilma.

Antes de entrar propriamente no assunto, cumpre dizer que estavam certos. Existiu um grande acordo nacional. Mas, ele não consistia apenas em alçar Temer à suprema magistratura da República. Tinha mais, muito mais. Relembremos. Machado disse a Jucá: “O Michel forma um governo de união nacional, faz um grande acordo, protege o Lula, protege todo mundo”. A resposta de Jucá? “Com o Supremo, com tudo”.

Vimos no último dia 22, quinta-feira, o grande acordo nacional em andamento. Num julgamento pouco ortodoxo, com as bênçãos dos ministros José Antônio Dias Toffoli – insuspeitíssimo ex-advogado do PT e ex-Advogado-Geral da União do próprio paciente do habeas corpus -, Celso de Mello, Gilmar Mendes, Marco Aurélio de Mello, Ricardo Lewandowski e Rosa Weber, o ex-presidente Lula recebeu um salvo-conduto para ficar fora do xadrez.

Diante do exposto, dou o braço a torcer aos amigos petistas: é golpe!

Mas o golpe consiste no conchavo sujo que a quadrilha cognominada Partido dos Trabalhadores tem feito desde o princípio para salvar o seu chefe da prisão, que é o seu lugar. O golpe começou quando a ex-presidente Dilma, à altura da espontânea revolta popular de junho de 2013, tentou propor uma inédita e ilegal assembleia constituinte “exclusiva” para a reforma política – para empurrar goela abaixo dos brasileiros dispositivos constitucionais autoritários, à venezuelana.

Tivemos manifestação do golpismo quando Dilma, enquanto as investigações da Operação Lava-Jato avançavam, tentou nomear Lula para o posto de ministro-chefe da Casa Civil, com o fim de dar-lhe foro privilegiado e livrá-lo do juiz Sérgio Moro. Golpismo, aliás, que escarnecia da população brasileira, que lotou ruas e praças, e promoveu panelaços para protestar.

Tivemos manifestação do golpismo quando Waldir Maranhão, então vice-presidente da Câmara, resolveu tentar anular a votação do impedimento na Câmara através de uma canetada.

Tivemos manifestação do golpismo mais grosseiro – ao inteiro arrepio da Constituição – quando resolveu-se condenar Dilma, obviamente culpada de crime de responsabilidade, mas sem a pena obrigatória, e não acessória, da perda dos direitos políticos por oito anos. Tudo sob as bênçãos de Ricardo Lewandowski, essa menina dos olhos do petismo, como comprovou-se durante o julgamento da Ação Penal 470, conhecida como processo do mensalão.

Agora, para coroar o bolo com uma cereja, tivemos uma manifestação do golpismo no plenário do Supremo Tribunal Federal, quando livraram Lula da justa prisão iminente.

O petismo não é só golpista no sentido da ciência política, mas do vulgo popular. É uma seita de estelionatários da verdade, que simulam uma realidade paralela e negam o que está diante dos olhos. É golpista quando finge que é atingido por um golpe análogo ao do que são partícipes e promotores.

Golpismo sórdido é o que tenta dizer que a morte da vereadora Marielle Franco é parte da perseguição penal a Lula. Chega a ser um vilipêndio à memória da vereadora — porque Lula foi condenado, ainda que provavelmente jamais cumpra a pena, por enriquecer a si e a seus parceiros usando de cargo público, enquanto Marielle foi provavelmente morta por denunciar excessos do Estado.

Golpismo poltrão, mofino e covarde é o que tenta comparar a prisão de Rafael Braga, sob as bênçãos da lei-antiterrorismo de Dilma, que não teve um Supremo Tribunal Federal a lhe conceder salvo-conduto, que foi preso por portar uma garrafa de Pinho Sol e teve poucos defensores abnegados, ao contrário de Lula, um branco, milionário, poderoso, protegido por uma legião de abilolados, defendido em ofício por gente do quilate do ex-ministro Sepúlveda Pertence, e que tem sua impunidade comemorada em verso e prosa pelo senador Renan Calheiros (MDB-AL).

Golpismo rasteiro é o de quem diz que estamos num “Estado de exceção”, no qual não há justiça, porque Lula está sendo processado diante de provas irrefutáveis de crimes. Curiosamente, nesse suposto “Estado de exceção”, eis Lula, o perseguido, tendo todas as garantias penais que a multidão da massa carcerária não tem!

Um-sete-um é a expressão popular, inspirada no Código Penal, que mais perfeitamente se amolda à solidez da cara-de-pau do petismo. Vimos isso nos protestos contra o pífio ajuste fiscal – que deveria ser muito maior! – e na alegação de que tudo começou a piorar na posse de Temer, que recebeu um país quebrado na mão de uma das criaturas mais incompetentes que já passaram pelo gabinete da Presidência. Vimos isso nas mentiras sobre perdas de direitos, que não se sustentam diante de uma pergunta: quais direitos foram retirados?

Depois, com muita petulância em ousadia, chamam de avanço fascista a resposta de grande parte do povo brasileiro, quando foi às ruas pedir a saída de Dilma. A cada denúncia contra Michel Temer, perguntam, cinicamente, onde estão as panelas. Se esquecem, é claro, que Temer foi eleito duas vezes vice-presidente na chapa capitaneada pelo PT; para elegê-lo, bastava apertar 13. Mas entendem, no fundo do coração, que ninguém bate qualquer panela justamente porque é preferível o banditismo e a rapinagem de Temer, Moreira Franco et caterva, ao golpismo descarado, autoritário, verdadeiramente fascista, promovido pela bandalha de Lula.

O que querem, afinal? Querem gerar mais convulsão social? Querem que o Brasil, enojado, resolva eleger um imbecil radical como Jair Bolsonaro? Querem realmente testar até que ponto a sociedade passiva, que prefere implodir-se a tomar as ruas, pode aguentar?

O que querem, não posso afirmar. Posso afirmar o que não quer o petismo e o seu séquito, engordados ao longo de 13 anos por verbas à mão cheia, irresponsabilidade fiscal, descompromisso com a democracia, messianismo e, como diria o ministro Barroso, pitadas de psicopatia. O que não querem é paz, estabilidade, liberdade, honestidade e transparência. O que não querem é que – pelo preço que for, e ainda que o Brasil pereça – seu corrupto lavador de dinheiro vá para a cadeia.

Por Lucas Baqueiro

terça-feira, 20 de março de 2018



O que é o amor sem fidelidade? No fundo, uma mentira. Porque o sentido mais profundo de todo o amor, o "sim" interior que se pronuncia no amor, é uma íntima dedicação e entrega de si mesmo, que sobrevive sem prazo algum, inabalável através de todas as mudanças na correnteza da vida. Um homem que, por exemplo, diga: "Amo-te agora, mas por quanto tempo não sei", nem amou realmente, nem faz ideia nenhuma da essência do amor. A fidelidade é tão essencial ao amor que qualquer um tem de considerar perene a sua dedicação. Isto vale para todos os amores: para o amor aos pais, para o amor aos filhos, aos amigos, para o amor conjugal. Quanto mais profundo é o amor, tanta mais o penetra a fidelidade.

Por Dietrich von Hildebrand, em Atitudes éticas fundamentais

quinta-feira, 15 de março de 2018



Soneto filosofante com chavão de ouro

Bem já dizia o sábio Salomão:
é vaidade, vaidade das vaidades,
tudo que ao peito humano persuade
a tanto esforço inútil, nulo e vão,

pois, que de teu suor, não restarão
os frutos, nem o pó, sequer saudade;
tudo se perde e, tão logo se evade,
deixa para trás uma atroz lição:

nada fica, nem fama, nem dinheiro,
nem há, no mundo inteiro, o que persista;
os últimos igualam-se aos primeiros,

anulam-se as derrotas e as conquistas,
que, nesta vida, é tudo passageiro,
exceto o cobrador e o motorista.

Por Emmanuel Santiago, em Pavão bizarro

sábado, 10 de março de 2018



Morri de muitas mortes e mantê-las-ei em segredo até que a morte do corpo venha, e alguém, adivinhando, diga: esta, esta viveu. Porque aquele que mais experimenta o martírio é dele que se poderá dizer: este, sim, este viveu.

Por Clarice Lispector, em Morte de uma baleia

quinta-feira, 1 de março de 2018



A cruz abraça o mundo. Está plantada nos quatro
cantos do mundo. Há um pedaço dela para todos nós.

Por São João Maria Vianney, o Cura d'Ars

domingo, 25 de fevereiro de 2018



De que serve às pessoas alembrar-se
Do que se passou já, pois tudo passa,
Senão de entristecer-se e magoar-se?

Por Luís de Camões, em Elegia I
• Pintura: A mulher de Ló

quarta-feira, 14 de fevereiro de 2018



Quarta-feira de Cinzas

Pela imposição das cinzas, recebemos hoje o convite oficial da Igreja para fazermos penitência: “Lembra-te, ó homem, que és pó e em pó te hás de tornar”. A cinza é símbolo de penitência pelos pecados que trouxeram a morte para este mundo. As orações da bênção e imposição das cinzas e as da Missa nos fazem penetrar no espírito da penitência cristã; humilde submissão, unida a uma grande confiança na misericórdia de Deus. Enquanto a Epístola nos põe diante dos olhos um exemplo comovente de penitência, o jejum, Jesus Cristo nos ensina no Evangelho que este jejum deve ser antes de tudo interior. Se antigamente só os pecadores públicos recebiam as cinzas, mais tarde foi estendida esta prática a todos os fiéis, pois todos devem sentir-se e confessar-se pecadores e fazer penitências.

Texto retirado do Missal Quotidiano – Dom Beda Keckeisen, O.S.B. – Edição de 1961

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Não é por acaso que muitas pessoas se convertem às portas da morte ou num momento traumático. Se andávamos distraídos das questões fundamentais, a experiência da fragilidade extrema torna-se libertadora - faz-nos sentir quão pequenos somos; e quão próximos vivemos do transcendente. A conversão não é senão uma rendição à verdadeira humildade; finalmente, reconhecemo-nos onde sempre estivemos: nas mãos de Deus.

Na vida, buscamos satisfazer os sentidos, as necessidades, à medida em que vão surgindo. Se temos fome, comemos; se temos sede, bebemos; se precisamos de alguma coisa, compramos. Acreditamos que satisfazer os desejos é o caminho da verdadeira felicidade. Como nos equivocamos! Um desejo satisfeito abre a porta para outro desejo. Maior ou diferente. E assim vamos, em um círculo interminável. Saber renunciar nos torna mais livres e, portanto, mais capazes de sermos verdadeiramente felizes.

Estamos acostumados a ter tudo facilmente. Nesta sociedade do bem-estar, nós nos habituamos rapidamente às coisas boas. O aburguesamento da alma é paulatino, lento, mas crescente. A alma vai perdendo força, ímpeto e adormece. Vai se enfraquecendo quase sem percebermos. Aproveitemos, pois, deste tempo da Quaresma!

A Quaresma é um tempo privilegiado para buscarmos mais momentos de oração, para contemplarmos o Senhor no Santíssimo Sacramento, para lermos a Bíblia e saborearmos a Palavra de Deus.

Tempo para meditarmos sobre a própria vida à luz de Nossa Senhora, tempo para discernirmos os caminhos que precisamos seguir. Tempo para lermos livros de espiritualidade que despertem novas perguntas em nós. Tempo para enxergarmos Deus na nossa vida, no silêncio, no escondido. Tempo para voltarmos nosso olhar para o próprio coração.