quarta-feira, 20 de setembro de 2017



Nós vivemos fora de nossa interioridade: não interiorizamos nossa vida prática, exteriorizamos nossa consciência; não recuperamos o mundo dentro de nós, nos perdemos e dispersamos a nós mesmos no mundo. Refletimos a superfície das coisas em lugar de refletir sobre as coisas a profundidade do nosso espírito.

Por Michele Federico Sciacca, em “Fenomenología del hombre contemporâneo”



olhar as primeiras flores
dá à minha existência
mais setenta e cinco anos

Por Matsuo Bashô
 A Primavera começará às 17h02 do dia 22 de setembro.

terça-feira, 19 de setembro de 2017



Um homem nunca chora

Acreditava naquela história
do homem que nunca chora.


Eu julgava-me um homem.

Na adolescência
meus filmes de aventura
punham-me muito longe de ser covarde
na arrogante criancice do herói de ferro.


Agora tremo
E agora choro.


Como um homem treme.
Como um homem chora.


Por José Craveirinha, poeta moçambicano

segunda-feira, 18 de setembro de 2017



Oração do esfarrapado

Manhã de sol e calor em Londrina. Dia de Nossa Senhora das Dores. Estava eu caminhando pela Avenida Paraná e rezando meu rosário, quando vi o jovem. Dormia na calçada, sobre uma colcha de papelão. Dormia um sono profundo, alheio ao movimento dos passantes. Terminei de rezar mais uma Ave-Maria e parei para observá-lo: era realmente um jovem, não tinha mais do que 25 anos. Vestia uma camiseta e uma bermuda em farrapos. Seus pés e suas mãos estavam sujos, feridos. Na verdade, todo o seu corpo parecia uma grande ferida. Nunca me acostumarei com isso, nunca.

Quando eu me apresentar a Deus, minha alma deverá estar muito semelhante à imagem daquele rapaz que dormia no chão da Avenida Paraná. Aliás, é provável que esteja em piores condições. Porque uma alma não é apenas o que é no presente, mas a síntese de toda a sua trajetória. Ao partir, levarei comigo todos os erros que cometi, as feridas que causei, as ofensas que fiz, as mentiras que contei, as graças que desprezei, as vidas que matei. Minhas roupas serão farrapos, minha forma será uma só cicatriz.

Na hierarquia da Igreja, ocupo a posição mais baixa: a de pecador. Se às vezes consigo fazer algum bem, é apenas um lampejo no meio da escuridão. E, no entanto, esse lampejo é como a tábua em que um náufrago se agarra no meio do oceano. Ele me faz acreditar na possibilidade da salvação. O verdadeiro nome desse lampejo é esperança. Na Igreja, ele brilha no sacrário, indicando que Deus está ali.

Durante muitos anos, fui um escravo da mentira. A palavra mentira deriva de "mente", ou seja, aquilo que criamos por nossos pensamentos. Eu vivia em um mundo irreal, construído por pensamentos utópicos e revolucionários que julgava sublimes. Só tinha amor a mim mesmo, não a Deus, ao próximo ou à verdade. Muitas vezes me deixei cair numa situação parecida com a do rapaz que dormia no chão da rua. Quem alguma vez chegou a esse ponto, nunca mais o esquecerá.

Os maiores milagres, porém, ocorrem justamente com os esfarrapados deste mundo. O filho pródigo, o cego Bartimeu, o homem com a mão seca, o leproso que volta para agradecer, o mendigo Lázaro, o bom ladrão, a mulher adúltera, a samaritana, Madalena dominada por sete demônios — todas essas personagens aparentemente menores da história sagrada são protagonistas da salvação.

O perdão é a lei do universo. Deus permitiu as feridas, as dores, os sofrimentos, as mentiras e os crimes porque tem a infinita capacidade de apagá-los para sempre. Quando minha hora chegar, eu me apresentarei em farrapos. Mas levarei comigo a esperança de que os farrapos se transformem em manto, e as dores em graças, e as angústias em alegrias, e as mentiras em verdade.

Um dia, o rapaz que dorme no chão vai acordar. Esta crônica é dedicada a ele — e a você também, meu oitavo leitor.

Por Paulo Briguet